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Livro 7

O livro das histórias cruéis

Série dos contos baseados em fatos reais.

Cruelmente reais.

Tire suas próprias conclusões após ler e perceba se é possível viver neste mundo e continuar alheio, a parte destas histórias, alienado à estas vidas que na literatura são um mero esboço da realidade que é muito mais cruel.

Apesar de uma obra literária de ficção, todos os casos foram inspirados em pessoas reais que viveram situações estupidamente reais.

A autora não aponta em sua obra nenhum caso em específico e todos os nomes de personagens, lugares e situações são fictícios. Alguma coincidência é apenas coincidência.

Mas se você ao ler o livro 7 puder identificar alguma proximidade com alguma história real de alguém que você conheça, entenda que a pessoa real vive ou viveu crueldade ainda pior, aqui é apenas uma ficção cruel.

E se você ao ler o livro 7 se identificar e se perceber uma vítima real da crueldade nesta obra narrada por personagens fictícios, por favor, supere-a mas sinta-se abraçado por esta obra e não a copie, por ser uma obra de ficção os personagens reagem de forma arbitrária e cruel.

Talvez se o fizessem na vida real a realidade não fosse tão cruel.

Talvez tornar-se-ia ainda pior.

Ainda mais cruel.

O menino do bosque

Livro 7- Conto I

O menino do bosque.
Parte 1 do conto I

Chovia muito, a água escorria pela janela, eu tentava segurar as gotas para que fizessem desenhos no vidro, mas o fazendo do lado de dentro apenas usava a imaginação para que as gotas do lado de fora de alguma forma me obedecessem.

Imagina isso, se elas me obedecessem!

Seria incrível, absurdamente incrível, ter este poder, ter algum poder, qualquer poder.

Mas ao invés disso, ali estava eu, me sentindo um garoto tremendamente estúpido, estúpido por dentro, por fora, de todas as formas com tamanha estupidez que sequer conseguia me encarar no espelho.

Já havia se passado o quê? Sete anos? Mas era tão estupidamente doloroso como se tivesse acabado de acontecer, então eu apenas fingia não ter acontecido para não sentir aquela dor horrível, desta forma doía menos eu mentia pra mim mesmo e assim, sentia-me absolutamente e estupidamente estúpido!

Fui interrompido em meus pensamentos punitivos quando o diabo abriu a porta.

Ele vinha sorrindo, aquele sorriso afetuoso, dolorosamente afetuoso, os olhos sempre marejados, as sobrancelhas grossas iguais as minhas sempre levantadas, querendo sorrir talvez? Ele todo era um sorriso ininterrupto, estupidamente ininterrupto.

Trazia uma xícara com chocolate quente e vinha chacoalhando-a de forma desajeitada, quase engraçado e neste momento eu o odiava mais que a todos os outros.

Ele era engraçado, o maldito era muito engraçado.

Em um tropeço desajeitado e uma risada afetuosa, colocou a xícara sobre a mesinha de vidro que ficava ao centro da sala, sem se preocupar se faria marcas no vidro, isto nunca o perturbava, as marcas.

Se mamãe estivesse ali seria diferente não é mesmo, eu pensei tentando odiá-la com toda a força do meu coração que ainda batia, apesar de autômato.

Uma única marca de um copo, ou de qualquer coisa sobre seus preciosos móveis já a tornariam um monstro, aos berros e chineladas ela partiria pra cima de mim sem piedade. Era sempre um descontrole e uma gritaria, da qual havíamos nos livrado.

Sete longos anos de silêncio e quietude.

Era tudo que queríamos, era tudo que sonhávamos.

O preço para a paz no entanto, era maior que eu poderia supor, bem maior que eu poderia pagar, bem pior do que poderia suportar.

Por quanto tempo eu ainda teria de fingir? Por quanto tempo eu ainda teria de aceitar? Mas existiria a opção de poder parar?

Ah o poder.

Eu gostaria de poder matá-lo agora mesmo, enquanto se virava para voltar à cozinha, provavelmente para buscar algo para comermos enquanto víamos nossas séries preferidas no sofá, debaixo das cobertas.

Claro as cobertas.

Estávamos vivendo naquele bosque frio, onde chovia todos os dias, onde a friagem poderia me causar um resfriado e claro, papai tão afetuoso precisava me manter aquecido.

Bem aquecido!

Bem aquecido, bem pertinho dele, com ele , debaixo das cobertas dele, no calor do corpo dele.

Maldito, este diabo que um dia hei de matar, vagarosamente, olhando bem nos olhos dele, vou perguntar como ele faz comigo desde quando me trouxe para morar nesse lugar gelado em meio a natureza: ” Está quentinho? Não quero que sinta dor, precisa ficar bem quentinho pra ficar bem relaxado, isso relaxa, deixa que papai mostra como faz”

Ao invés de olhar para as flores douradas do papel de parede, para os troféus orgulhosamente enfileirados nas prateleiras da estante de carvalho e para o lindo piano de cauda preto como a noite estrelada, igual o quadro do famoso pintor que fazia as nuvens de sua noite estrelada se curvarem para dançar em volta do pinheiro, eu olharia desta vez para o fundo de seus olhos e enquanto observasse sua agonia de morte lhe perguntaria, o porquê?

Era tudo que minha mente em agonia nestes últimos e recentes dois anos repetia incessantemente. Não precisava nem fechar os olhos para ter de volta a visão de minha mãe aos gritos ” Por que? Por que? Por que?”

Não havia resposta, apenas desespero.

Eu era muito pequeno ainda para entender a reação estúpida dela, afinal era apenas mais uma de muitas, acreditei que igual outras tantas vezes eu tomaria chineladas, puxões de orelha e tapas tão fortes que os vergões ficariam dias na minha pele. Eu a odiava por isso, queria que ela morresse e este era apenas um dos muitos segredinhos que papai compartilhava comigo.

Bati a cabeça com tanta força na janela que todas as gotas lá fora se precipitaram formando um rio, um rio de lágrimas, igual o que escorria de meus olhos enquanto me lembrava, de cada detalhe, agora com a lucidez de meus 12 anos.

Meus malditos 12 anos.

Pensei neste momento que as lembranças agora lúcidas, mas antes de um tempo de menino tão pequeno, eram lembranças do tamanho da dor que nenhum adulto poderia suportar.

Era sempre assim, nós dois, sempre juntinhos, abraçados a noite, como ele havia me ensinado, compartilhando nossos segredinhos.

-Não pode contar nunca pra sua mãe ouviu? Nunca, nunquinha, senão ela separa nós dois e eu não vou mais conseguir te proteger daquela bruxa má!

-Papai porque a mamãe está sempre brava comigo?

-Ah porque ela é má, muito, muito má!

e então era sempre uma sequencia de risos, cócegas e beijos na barriga, risos, cócegas e beijos no umbigo, risos, cócegas e longos beijos em meu pênis, que na época eu chamava de piupiu.

-Papai porque você beija meu piupiu?

-Xiiuuuu -dizia com o dedo indicador na boca pedindo silêncio, os olhos afetuosos marejados de lágrimas- Não pode dizer isso nunca, nunquinha, é nosso outro segredinho filho.

-Mas porque papai beija e mamãe não beija? Ela ficou brava e bateu em mim quando eu pedi pra ela beijar aqui.

-É que ela é uma bruxa má, muito má, e não pode saber que papai ama tanto seu filhinho que o beija com amor em todos os lugares, são beijos de proteção meu amor, pra te proteger daquela bruxa malvada.

Eu continuava batendo minha cabeça na vidraça da janela, não sei se para afastar aquelas lembranças das longas e intermináveis sessões de beijos e cócegas que na época eram pra mim tão gostosas e ao lembrar destas sensações me sentia ainda mais estúpido, o ódio de mim mesmo tomava meu ser de uma forma que eu podia sentir minha alma toda se transformado num monstro desejoso de sangue, e eu batia ainda mais minha cabeça no vidro da janela, inutilmente, porque as lembranças iam e vinham ainda mais e com mais lucidez.

-Joaquim anda que estamos atrasados, seu pai aquele imbecil inútil não ajuda em nada, vamos moleque, anda!- minha mãe dizia espumando ódio enquanto me puxava pelo bracinho, apertava com tanta força que doía, a mochila da escola ia batendo nas minhas costas, eu pequeno, aos tropeços, com sono, não podia evitar aquilo que vinha a minha cabeça ” papai tem razão, ela é uma bruxa!”

-Bruxa, bruxa, você é má!

E assim tomava tapas e puxões de orelha e era deixado na escolinha aos berros e reclamava com as professoras que mamãe era uma bruxa e que papai queria me proteger e isso se repetia, dia após dia, todos os dias, os fatídicos dias.

A chuva na janela agora se misturava ao fino rio de sangue que escorria de minha testa, ao bater havia estourado uma espinha, que estranhamente surgia, assim como uma puberdade que vinha e me deixava cada dia mais lúcido e mais estúpido.

Se ao menos eu soubesse naquela época!

Se ao menos alguém tivesse acreditado na bruxa naquela época!

Mas ninguém acredita nas bruxas, porque elas são más, não é mesmo?

Lembro da cor da poltrona, de um marrom azedo, meio borrado, meio velho, com a mesinha de canto nele encostada, sobre a mesinha um vaso vazio, igual era meu coração naquele vazio de uma imensidão de perguntas. A sala do fórum era tão gelada quanto aquela poltrona, onde eu com meus 5 anos afundava querendo morrer, como se a poltrona me devorasse, pensei que isso seria melhor que os gritos da minha mãe, eu tapava meus ouvidos e só conseguia gritar junto para abafar seus gritos de desespero. Mas ao contrário dos gritos dela que eram desesperados e repetidos ” acreditem em mim, pelo amor de Deus devolvam meu filho, Joaquim! Joaquim meu filho!” eu gritava com toda a força:

-Bruxa! Bruxa! Mentirosa! Eu quero o papai, eu quero o papai! Papai me protege! Papai! Papai!

Lembro em meio às lágrimas de ver o diabo com aquele sorriso afetuoso, tão afetuoso que arrancava lágrimas dos olhos das psicólogas que hoje compreendo, travava-se de uma equipe conhecida como forense. Ele vinha como o herói, aclamado, lembro de ter visto uma das mulheres naquela sala o abraçar dizendo que o inferno tinha acabado e ele poderia me levar .

O inferno.

Qual inferno?

O meu inferno.

Com o diabo do sorriso afetuoso.

Que vinha todos os dias agora, não mais apenas aos finais de semana, com seu sorriso amoroso, a sobrancelha levantada e sorridente pronta para as cócegas, com a xícara fumegante de chocolate quente, lanches e doces da melhor marca, de baixo do melhor cobertor canadense, de frente a mais rica lareira da mais suntuosa e mais incrível das casas de terror do bosque em meio às montanhas, bem longe da bruxa, a bruxa má.

BAQUE

o vidro rompeu

O sangue agora misturava-se à ferida da espinha, porém mais volumoso, quente, descendo junto a chuva que agora entrava sala a dentro, as cortinas batiam no meu rosto indo e vindo cada vez mais tingidas pelo tom vermelho escuro do meu sangue, formando flores em meio ao bege do tecido de cetim decorado com fios dourados, pensei que pareciam as flores dos quadros que papai pintava no ateliê, o ateliê do diabo, onde ele dizia estar me treinando para ser ator de filmes famosos e eram tantos os filmes que papai fazia, mas apenas nas noites enluaradas, ele dizia que era a melhor luz para me deixar ainda mais lindo na lente da câmera.

O grito dele me trouxe de volta à sala encharcada de chuva e sangue.

Meu pai boquiaberto aos tropeços correu em minha direção, com o barulho do vidro estilhaçando ele fora chamado de seus afazeres finais na cozinha, entre um bolo que cuidadosamente fatiava ainda quente recém saído do forno e uma caixa de chocolates trufados, na correria para vir em minha direção e socorro sequer viu que derrubava a xícara, com mesinha e tudo e ele junto, cujo corpo caía dolorosamente sobre o vidro da mesinha que também se estilhaçava, observei seu sangue jorrando no tapete cor de marfim, minhas memórias lúcidas jorravam igual aquele mar de sangue e de chuva que invadia a sala e meus pensamentos, minhas memórias agora fazendo sentindo, voltavam com a velocidade cruel de uma realidade que me tomava com a força e a fúria dos meus doze estúpidos anos de vida.

Estupida e repentinamente pude dizer, com o mesmo e treinado sorriso afetuoso, o qual eu devolvia agora com imenso prazer.

-Não se levante papai, não quero que se machuque, está doendo? Não quero que doa, fique aí bem quietinho, não se mova, eu vou cuidar de você, mas este será nosso segredinho papai, você não pode contar pra ninguém, senão vão separar a gente papai e eu não poderia suportar isso, acho que eu até morreria de saudade papai, eu vou te proteger, mas apenas me diga papai, vamos falar sobre a Bruxa?

Os olhos dele de um instante deixaram de ser afetuosos e o horror tomou sua face.

…continua

Publicado por lucianauyeda

Escritora, artista plástica, diretora de teatro e teatro dança, está disponibilizando neste site o Blog livro das histórias cruéis, que contém 8 livros de obra de ficção inspirada em fatos reais, o Blog Livro de Andaluzia que é uma coletânea de memórias de uma jovem refugiada da guerra e o Blog Livro das Almas da série de contos místicos. Os capítulos se iniciam com o livro 7 do Livro Blog livro das histórias cruéis, estão previstas uma publicação de um capítulo por semana, talvez mais, talvez menos, conforme a disponibilidade, saúde da autora e lentidão da Internet. Comentários estúpidos serão ignorados. Nenhum personagem e nenhuma história representa uma pessoa em especial, são coletâneas de obras escritas desde 2006, período em que Luciana Uyeda passou a se dedicar a expressar a dor de vítimas de violência através de sua Arte, são obras de ficção com profunda sensibilidade e desejo de justiça para todos que sofrem. Nenhuma história é baseada em fatos reais e sim inspirada em fatos reais e nenhum personagem existe ou existiu de verdade, porém os fatos representam tragédias vividas por pessoas reais em diferentes épocas e lugares. A autora optou por tornar público porque desde a recente eleição danosa em seu país não encontra nenhum espaço nem apoio para apresentar suas histórias em peças de teatro ou de teatro dança, sejam na íntegra ou em esquetes para ativismo Feminista e de proteção às Mulheres e crianças, combate à homofobia e racismo que são os assuntos principais de suas histórias. Tornando pública a fonte da inspiração de todas as esquetes e peças já produzidas desde 2006 a autora espera respeito às publicações e direitos autorais e interesse em autoridades para que tomem conhecimento através da literatura desta ficção sobre o sofrimento das vítimas que diferente das encontradas nesta obra, na vida, são reais. Boa leitura. Esteja preparado(a) para ler. São histórias em séries e são cruéis. Luciana Uyeda.

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  1. Avatar de lucianauyeda

1 Comment

  1. A sequencia ” A bruxa” das memórias narradas por Joaquim enquanto o embate inevitável com seu genitor se desenrola na casa do bosque será publicada em breve.
    No Livro Blog também existem os contos das almas da série mística e Andaluzia, dos contos de guerra mas estes painéis ainda não estão disponíveis.Todos tratam-se de obras de ficção.
    A autora.
    Luciana Uyeda.

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